sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Cesteiro que faz um cesto faz cem

Cesteiro que faz um cesto faz cem

Há dias venho pensando sobre o acordo que o Brasil e a Turquia conseguiram com o Irã baseado nos pontos que Os EUA pediram que fossem negociados os quais há onze messes vinha-se tentando sem nenhum avanço satisfatório.

Ora, se o presidente Obama envia uma Carta ao Presidente Lula, sobre os pontos a serem negociados deixando claro acreditar na diplomacia do governo brasileiro como uma última esperança na tentativa de se costurar um acordo – é claro que não estaria contemplado tudo nesse acordo, mas seria um início para se avançar nas negociações então obviamente que os EUA estavam cientes e concordavam na ida dos presidentes do Brasil e Turquia ao Irã sobre o problema do impasse que se gerou entre esse país e o mundo no que se trata do enriquecimento do Urânio (Não vou me estender aqui nesse assunto uma vez que já é do conhecimento amplo do mundo inteiro)

O que me deixou perplexa foi a falta de respeito, credibilidade e responsabilidade dos EUA com esses dois países expondo-os ao ridículo e chacotas da imprensa internacional noticiando e enfatizando a ingenuidade dos dois quando na verdade esse deveria ser uma fato histórico.

Só tiro duas conclusões dessa reação dos EUA:

1 - Os EUA mandaram a carta apenas por brincadeirinha, achando que jamais o presidente Lula conseguiria costurar um acordo de tamanha envergadura querendo apenas ridicularizar os Presidentes da Turquia e Brasil - Potências classe B como eles costumam nos ver.

2 - Os EUA são realmente capazes das maiores atrocidades em defesa da sua hegemonia e não mede esforços para atropelar quem quer que seja na busca pela demonstração de sua Superioridade – em termos mais chulos, me passa a impressão como dizemos aqui no Brasil, são capazes de pisar no pescoço da mãe à caça dos seus vis interesses.

Se não vejamos:

Entre uma conversa com o meu esposo - moramos num sítio e ficamos os dois aqui alternados ora na internet ora antenados na TV Senado/ Congresso, quando eu lanço ao meu esposo a pergunta: Por que os EUA têm tanta preocupação que outros países fabriquem bombas se ele – os EUA são um dos nove países que tem bomba, diga-se de passagem, entre esses noves quatro têm base dos EUA e nunca deram um passo à frente na luta pelo desarmamento das bombas, e se quer apóiam a formação de um Conselho para fiscalizar essas bombas por países imparciais que não tenham bombas nucleares? Por que eles podem ter e os outros não? (sou contrária a qualquer um que tenha) Ou então é aquela velha máxima – Façam o que mando, mas não façam o que faço? Qual não foi meu espanto quando meu esposo me sai com essa resposta:

Mas você tem que ver quem é esse povo - (o Irã) e outros “radicais” (entenda-se como radicais para ele fanáticos religiosos) aí que querem enriquecer Urânio, países de cultura anti democrática onde o povo não tem direito a manifestar suas idéias e por isso é um povo perigoso capaz de atrocidades que estamos longe de imaginar. Eu fiquei refletindo sobre essas palavras do meu marido e martelei a noite toda na cama e cheguei a minha conclusão partindo dessa resposta dele:

Se tivermos de temer atrocidades de algum país do planeta esse são os EUA e talvez seja por isso que eles sejam tão veementemente contra essa história de fabricação de armas nucleares.

Acompanhem o meu raciocínio (uma sessentona que pouco entende de política mas que gosta de ler e acompanhar fatos que acontecem pelo mundo)

Quem foi o único país até hoje que teve a coragem de jogar uma bomba, matando e mutilando milhares de pessoas?

Quem levou à uma guerra milhares de meninos americanos – seus próprios filhos - no Vietnã? Uma vergonha que não tem preço, se meteram numa briga que não tinha nada a ver com eles apenas por ganância e sempre alegando motivos irreais - perderam.

Quem inventou que o Iraque tinha armas nucleares para usarem como desculpas para invadir o país quando na verdade sabemos muito bem os verdadeiros motivos. Se o Sadam era um ditador, um carrasco o povo Iraquiano é que tinha que resolver seus problemas. Resultado: centenas de vidas ceifadas - quantas mães que choram até hoje a perda dos seus filhos queridos e o sofrimento de vê-los mutilados? Um presidente de um país decapitado,filhos mortos violentamente. A rede de TV estadunidense CBS mostra ao vivo no seu programa 60 minutes fotos tiradas na prisão Abu Ghraib do Iraque em que guardas posam ao lado de prisioneiros em posições humilhantes.

Quem armou o Irã? Quem armou o Iraque e outros países que os EUA continuam vendendo armas bélicas sua maior fonte de renda?

Quem fomenta essa guerra entre Palestinos e Judeus? Servem a Deus e ao Diabo?

Quem desencadeou tanto ódio a ponto do seu próprio pupilo - Osama Bim Ladem se revoltar com o mestre em um ataque feroz aos seus símbolos de superioridade no que ficou conhecido como o Onze de Setembro?

Quem mantém a prisão de Guantánamo – o mundo espera que o decreto do presidente Obama em vigor o mais rápido possível - com os mais terríveis estados de crueldade e tortura numa ostentação de arrogância ao mundo da violação aos Direitos Humanos? - O jornal New Yorker revela um relatório que descreve várias instâncias de abuso contra os prisioneiros.

Mas não querendo me estender mais para não fiar cansativo apenas respondi ao meu marido depois de uma noite mal dormida:

Sabe meu bem, eu não confio é nos EUA citando tudo que aqui escrevi e mais alguma coisa e ainda de quebra falei que não podia confiar num país que manda uma carta para um presidente falando quais pontos deveriam ser negociados e quando se consegue depois de longas 18 horas de negociação à exaustão, um acordo, eles dão um passo atrás. Como dizia minha mãe “Cesteiro que faz um cesto faz cem, quem foi capaz de jogar uma bomba nuclear uma vez pode jogar mais vezes. É desse povo que devemos temer.

Propósito de um Guerreiro

O menino faz um propósito: Chegar cansado de um trabalho árduo, pesado, as mãos calejadas, do peso da ferramenta, os joelhos expostos pelas calças rasgadas de tanto trabalhar agachado. Mas chega feliz glorificando a Deus e pedindo forças para cumprir o sacrifício oferecido a Ele em troca do seu propósito: Voltar para perto das outras duas filhas Carol e Júlia que por força de escolhas erradas incentivado por vozes perversas, o levaram para distante dos seus tesouros. Partiu envergonhado, cabisbaixo, desmoralizado, rejeitado pela própria família que o via como um pesadelo, para um mundo desconhecido, onde a selva de concreto fria e impessoal lhe recebeu com desconfiança, indiferença e humilhações. Pensou em desistir, mas encontrou no seu caminho o Dono do Mundo, que não o largou mais, e o menino fez um propósito com Ele : “Senhor eu quero viver perto das minhas outras filhas também, eu Te glorifico e faço um sacrifício para provar minha fé e meu amor por Ti”. Resta agora saber como Deus vai responder ao seu propósito , porque Ele é quem sabe o que é melhor para o menino. O menino sabe, disso , mas continua firme com o seu propósito.

Samba de Uma nota Só

Samba de uma nota só pelos avessos

(inspirado no Poema de Vinícius de Morais – Samba de uma Nota Só – Licença meu imortal poeta)

Eis aqui o JN de ontem feito numa nota só.

Tantas notas para entrar mas a idéia era uma só:

Denegrir uma imagem construída por muitos... Por mim, por você...

De um operário-presidente que sabe fazer muito bem e não apenas dizer.

Quanta gente existe por aí que fala tanto e não faz nada

Ou quase nada.

Utilizaram de toda carga dramática e no final não deu em nada...

Não disseram nada.

E a cada volta dos reclames do plim plim tentavam a pseudo- verdade nos convencer.

E cantou tanto a mesma nota que cansou o telespectador, inclusive eu e você.

E sem compromisso algum, deixaram de lado todas as notas: ré, mi, fá, sol, lá, si, dó.

Articulando uma cansativa e repetitiva nota dissonante que deu uma soneira só.

Uma Pitada de Anarquia

Gosto da linha anarquista

Quero a certeza dos loucos que sonham e despertam a zombaria dos outros, pois se persistirem, conquistarão sua insensatez e serão reconhecidos como sábios

Twiteira viciada, mas só para saber como anda o mundo capitalista, os barões do autoritarismo nascido dos esgotos da politicagem.

Meu Twitter - @mariaguidah

Podem me seguir a vontade

Vai sobrar para FHC

Vai sobrar para Fernando Henrique

(Coluna do Correioweb, 14/10/2002)

Ricardo Noblat

De hoje até o próximo dia 25, estará no ar em todos os aparelhos de rádio e de televisão do país o confronto entre o medo e a mudança. Lula simboliza a mudança, quer se goste dele ou não. Para impedir que ele suceda o presidente Fernando Henrique Cardoso, o candidato José Serra esgrimirá com o medo.

É lógico que Serra não aposentará suas principais propostas de campanha. E que insistirá com aquela eleita por seus assessores como a mais sedutora – a da criação de milhões de empregos novos. Mas os programas de governo dos dois candidatos já foram explorados à farta no primeiro turno.

No segundo turno de uma eleição as pessoas não votam em programas de governo. Nem se deixam influenciar tanto assim pelas novas companhias apresentadas pelos candidatos. Elas costumam votar no que os candidatos representam. Ou no que acham que eles representam. Esse é o ponto essencial.

Lula é percebido como o candidato que mudará o rumo do país caso seja eleito. Quase 80% dos eleitores querem que o rumo do país de fato seja mudado. Por mais que se esforce para esconder sua própria identidade, Serra é percebido como a continuidade da administração de Fernando Henrique.

Se os eleitores repelem a continuidade e pedem a mudança, como Serra poderá operar o milagre de ser eleito mesmo assim? Só acenando com o perigo da eleição de um candidato despreparado, capaz de afugentar os investidores estrangeiros e de empurrar o Brasil para a beira do abismo.

É a versão demonizada de Lula que Serra oferecerá ao país pelos próximos 12 dias. Ele não tem outra saída para tentar vencer. Simplesmente só tem essa. Se ele imaginasse que, derrotado agora, no futuro poderia retomar o sonho de ser presidente da República, talvez adotasse outro comportamento.

Mas, não. Serra concluiu que é agora ou nunca. Se Lula se eleger, tentará se reeleger. A derrota de Serra será a derrota do eixo paulista que hoje manda no PSDB. Emergirão novos líderes dentro do partido – entre eles, Aécio Neves, eleito governador de Minas Gerais, e Tasso Jereissati, eleito senador pelo Ceará.

O PT sempre foi menor do que Lula. E Lula sempre foi de forma inquestionável o dono do partido. Serra nunca foi dono do PSDB e sequer teve o tamanho dele. No rastro de sua candidatura à presidência da República, o partido minguou. Então só lhe resta vencer ou vencer. Por cima ou com o uso de pau e pedra.

Foi com o emprego da força que Serra se impôs como candidato do PSDB. Depois ele voltou a apelar para a força quando a ex-governadora Roseana Sarney atravessou seu caminho. Novamente pela força destruiu a candidatura de Ciro Gomes. Dessa vez, registre-se, com a ajuda indispensável do próprio Ciro.

Se deu certo ate aqui, e se outra alternativa não lhe resta, Serra apelará novamente para a força. E ponto final. Deverá sobrar para Fernando Henrique. Ele sobreviveu ao primeiro turno mais ou menos incólume. Para responder aos ataques de Serra, Lula devolverá Fernando Henrique ao centro do palco.

terça-feira, 13 de abril de 2010

PORQUE FALAR ME FAZ BEM

Meus filhos preciso falar e só sei fazer isso escrevendo, vou direto ao ponto, para não lhes tomar muito tempo e também para não ser cansativa essa minha conversa. Fiz sessenta anos e é chegada a hora de desabafar - não estou disposta a aceitar mais nenhuma estupidez nem injustiças, tão pouco opiniões formadas ao meu respeito de quem quer que seja principalmente de filhos. Se não quiserem me ver, ou mesmo saber de mim, paciência vou ficar triste, mas podem ter certeza que não vou morrer por causa disso. Mesmo com a pouca aposentadoria que temos eu e seu pai vamos tocando a vida. E parafraseando Simone grafo aqui: “Sinto muito mais não vou medir palavras não se assuste com as verdades que eu disser”. Filho que não gosta de ouvir, não conhece o coração de uma mãe. Alguma coisa está me incomodando? Vou falar. Minha morada aqui nesse prisma já está findando. O Tempo, o Senhor de tudo já expediu o meu passaporte. Tenho sessenta anos filhos, e os dias que viver daqui pra frente é lucro, e fiquem certos que vou aproveitar ao máximo do que me resta dessa minha estadia aqui nesse planeta. Vou colocar na porta do meu quarto de hotel aqui na terra Silêncio, não incomode, hóspede aproveitando o pouco tempo de férias que lhe resta. Por isso resolvi tomar uma decisão: a partir de agora só faço o que quero e falo o que não der mais para segurar. Não vou temer cara feia, gritos vociferados, indiferenças, isolamento de ninguém, e em especial de filhos. Podem ter certeza vou me sentir a vontade para dizer NÃO na hora que achar que devo dizer e ponto. Vou fazer apenas o que me sentir bem. E, óbvio, procurando a melhor forma de tentar não magoar as pessoas. Só não vou me violentar para ficar bem na fita com ninguém. Como costuma citar sempre o pai de vocês - “meu pai dizia que nos tempos dele ele via lobisomem, hoje nos estamos vendo coisas muito piores”. Tenho mais é que aprender conviver com isso. Sem querer fazer apologia a lamúria - vocês sabem que não gosto disso - nossas despesas são altas e nossas aposentadorias baixas e sem perspectivas de evolução – dependemos do humor dos nossos governantes e representantes - mas daria para levarmos uma vida meio que engessada, mas quase que tranqüila, não fossem as preocupações com o modo de viver de vocês – não estou fazendo nenhum julgamento, apenas constatando uma realidade que só com a adição de décadas de anos vividos é que chegamos a essa percepção. Temos que vir sempre aos médicos, e quando estamos aqui não queremos dar despesas. E quando falo de não dar despesas inclua-se aí todos os filhos porque onde estivermos nos sentimos na obrigação de participar. Seria inquietante para nós ficarmos na dependência dos filhos ainda mais quando estes também têm suas vidas estruturadas em cima das suas despesas cotidianas. Assim como eu e seu pai. Uma pergunta que não quer calar: - eu e seu pai vivemos pedindo alguma coisa a vocês? Respondo: Não - É por orgulho? Vaidade? Egoísmo... Nada disso, quisera meus filhos ter para nos dá. Isso massageia nosso ego, como sei que vocês ficariam muito felizes e vaidosos também de servir aos seus pais - e falo de cadeira, porque foi a minha maior alegria quando consegui colocar minha mãe como minha dependente. Mas sabemos que nada é fácil para ninguém principalmente os que trabalham honestamente e não seria justo não contribuir, uma vez que temos salários também. Talvez vocês estejam se perguntando: Com essas despesas que meu pai e minha mãe têm devem ganhar razoável! Será? Querem saber a resposta? É só assistirem a TV Senado ou mesmo lerem algum jornal de Associações de Aposentados. Vocês, além disso, têm chance de mudarem suas histórias, pois ainda estão sendo escritas. E nós aposentados? Há muito que já escrevemos, editamos e publicamos a nossa história. Apenas a vida na sua sabedoria, não nos deixa sem saída e nos ensina como gerenciar para dar até o próximo pagamento. Às vezes como vocês jovens, damos umas vaciladas e, pronto, temos que apelar para o sorteio. É o caso do IPVA, não podemos deixar sem pagar são setecentos e poucos reais divididos de três vezes, alguma coisa vai ser postergada para pagamento depois, mas tudo se normaliza e gerenciando certinho dá para ter tranqüilidade e viver feliz. Aprendemos com o tempo a cultuar a simplicidade, e comprarmos alegria sem dinheiro: Uma rede preguiçosa pra deitar e ouvir música com uma chuva fina no telhado em tardes frias de inverno, a copa frondosa da árvore a nos emprestar a sua sombra com seus enormes braços detendo os raios escaldantes de um sol dourado, uma pássaro se banhando numa poça d’água nascida dos pingos de uma torneira mal fechada, um beija-flor parando no ar, a retirar com seu bico o néctar das flores, as tiradas de um neto aprendiz de gênio ou sabe-se lá de que... A corrida disparada para o abraço de uma neta tão doce que tem gosto de jujuba. As retóricas de uma menina de oito anos que horas nos dá a impressão de ter sido caçada a dente de cachorro tal qual uma índia no mato e em outras horas que foi criada nas passarelas da moda do tanto de caras e bocas que faz. E um certo adolescente que embora rebelde nos escolheu para sermos a sua âncora nos momentos que o “mar não está para peixe”? E sem dinheiro também compramos a doce espera da chegada de mais dois bebês na família. Presentaço! E as cabriolas e corridas desengonçadas de um cãozinho que só falta falar a abanar o seu rabinho num convite às brincadeiras? Sei que vocês pela forma negativa de agirem ao lidar com verdades que lhe são ditas vão me deixar um bom tempo na geladeira por esse meu desabafo, não importa, um dia a porta da geladeira quebra e um vento morninho entra e descongela tudo - imagine um casal idoso vivendo em um sítio distante de Salvador cerca de duas horas e meia - claro que por opção nossa - com limitações – não “vendemos” mais tanta saúde – não é apelação emocional, não é isso que quero levar-lhes a sentir, mesmo porque sou avessa a esse tipo de comportamento patético. Muito embora saiba que pelo menos um de vocês acha que faço teatro. Quem dera, teria conseguido muita coisa boa na minha vida! Sou verdadeiramente rude nesse sentido, mas garanto que nos sentimos muito bem lá. A nuvem lilás que paira sobre as nossas cabeças é conseqüência do pouco caso que fazem do nosso cantinho. Meu Deus que pessoas são vocês? Será que é verdade o que dizem que podemos gerar, mas nunca saberemos a cor da alma de cada filho? Branca, rosa, lilás, preta, azul, verde, vermelha ou um arco-íris? Apenas uma verdade vocês não podem escamotear: O amor meu e de seu pai por todos, indistintamente. Não lhe negaremos apoio nem ajuda em nenhum momento das suas vidas, só se não pudermos ou não tivermos, porque amor de pai e mãe é indelével, mesmo quando vocês nos gritam parecendo que estão falando com alguém que não são nada seus, quiçá, nem seus pais, ou nos colocam nos braços do abandono sob o comando da própria sorte. Será que vocês têm, por menor que seja, um mínimo de consciência de que estão enterrando vivos os seus pais? Ou só lembram deles nas suas necessidades? Acredite filhos: pai e mãe ainda é o melhor porto para atracar. Eu hoje só lamento o meu porto seguro ter se demolido tão cedo. Parece que foi ontem que vi pela última vez o meu porto se demolindo em meio a tubos, fios, agulhas, ferros, luz, oxigênio, cateteres, monitores... E por fim uma caixa de madeira feia, horrorosa com um vidro triangular onde se via um rosto de alguém que ia embora deixando órfãos, viúva e alicerces tão bem edificados, onde eu debruçada sobre ela pranteava a minha dor. A caixa de madeira iria ser colocada numa célula bem pequena feita de bloco e vedada com cimento para o resto da vida. Meu “painho” que tantos conselhos me deu, que tanto brigou comigo, que tanto fez por mim, se mudou de casa, agora ia descansar o corpo naquela célula pequenina enquanto a alma livre e solta ganhava a eternidade. E eu? Não contava? Quem me chamaria atenção a partir daquela data que eu tinha que arranjar um emprego para ajudar meu marido? Quem iria brigar comigo por eu ter ousado a entrar no grupo dos viciados em cigarro? Quem iria me repreender por meus comportamentos equivocados? Quem iria me socorrer nas horas que eu precisasse correr para os braços sempre abertos em busca de apóio, ou mesmo da minha infância que se perdeu pelos vários caminhos que o tempo cria? Perdão Te pedirei meu Deus, mas isso não foi descente. O Senhor desmoronou meu porto muito cedo! Filhos, vocês são privilegiados, nas suas idades eu já não tinha mais meu velho para pedir colo e a minha mãe hoje é quem precisa do meu colo e mais uma vez fui castigada porque infelizmente não posso dar-lhe. Fui podada por limites impostos à minha saúde fragilizada muito cedo, talvez pelos excessos cometidos na juventude. Mas não me rendo, estou ainda no jogo da vida que agora tem muito mais sentido de diversão do que de vitória. Amo vocês demais, sinto uma falta gritante de um abraço, de um afago na cabeça feito por um filho, de uma simples pergunta apenas: - como vai você? Ou mesmo: - você está bem? Mas não posso querer o que não têm ou não querem dar. A consciência tem peso, o juízo lacunas Queria poder dizer-lhes tudo isso olhando nos olhos de cada um de vocês, mas sabem que é uma coisa impossível, São intolerantes, e não aceitam verdades e eu além de ter pavio muito curto reconheço a minha franqueza rude. Além do mais sempre me dei melhor com a linguagem escrita que a falada. Porém, algumas palavras posso dizer-lhes pessoalmente se me permitirem: Abrace-nos mais, o abraço de um filho adulto é agasalho para os nossos corpos. Visite-nos mais, não espere que nós lhe visitemos, a vinda de vocês à nossa casa é uma viagem que nos dão de presente para voltarmos ao passado e rever nossas crianças. Ligue mais para nós, a voz de vocês é bálsamo para nossos corações. Faça-nos cafuné nas nossas cabeças já grisalhas pelo tempo, - estou brincando de esconde-esconde com o tempo - pintei os meus cabelos para ele não me reconhecer – seus dedos traquinando em nossas cabeças tocam uma canção de ninar para nós. Fale baixinho conosco, já não há mais tempo de consertar erros que cometemos com vocês quando acreditávamos estar fazendo o correto. Já fomos julgados, agora precisamos da grandeza do perdão porque na nossa idade pode ser muito tarde esperar. E quem sabe esses seus corações não tenha um tiquinho de amor para nos dar? Beijos da sua mãe que os ama muito. Salvador, abril de 2010