sábado, 7 de janeiro de 2012

“A Privataria Tucana” marca o fim de uma era

“A Privataria Tucana” marca o fim de uma era

 Coluna Econômica - 20/12/2011
O livro "A Privataria Tucana" marca o desfecho de uma era, ao decretar o fim político de José Serra. A falta de respostas de Serra ao livro - limitou-se a tachá-lo de "lixo" - foi a comprovação final de que não havia como responder às denúncias ali levantadas.
O livro mostra como, após as privatizaçōes, o Banco Opportunity - um dos maiores beneficiados - aportou recursos em paraísos fiscais, em empresas da filha Verônica Serra. Depois, como esse dinheiro entrou no país e serviu, entre outras coisas, para (simular) a compra da casa em que Serra vive.
Tem muito mais. Mostra a extensa rede de pessoas cercando Serra que, desde o início dos anos 90, fazia negócios entre si, utilizando o Banespa, o Banco do Brasil, circuitos de paraísos fiscais, as mesmas holdings utilizadas por outros personagens controvertidos para esquentar dinheiro
Provavelmente o livro não suscitará uma CPI, pela relevante razão de que o sistema de doleiros, paraísos fiscais, foi abundantemente utilizado por todos os partidos políticos, incluindo o PT. Aliás, uma das grandes estratégias de José Dirceu, assim que Lula é eleito, foi mapear e cooptar os personagens estrangeiros da privatização que, antes, orbitavam em torno de Serra.
Essa a razão de ter terminado em pizza a CPI do Banestado, que expunha personagens de todos os partidos.
Nesse imbróglio nacional, a posição mais sensível é a de Serra - e não propriamente para a opinião pública em geral, mas para seus próprios correligionários. Afinal, montou um esquema que em nada ficou a dever a notórios personagens da República, como Paulo Maluf. Jogou pesado para enriquecimento pessoal e da família.
Com as revelações do livro, quebra-se a grande defesa de Serra, algo que talvez a sociologia tenha estudado e que poderia ser chamada de "a blindagem dos salões". É quando personagens controvertidos se valem ou do mecenato, das artes, ou da proximidade com intelectuais para se blindarem. O caso recente mais notável foi o de Edemar Cid Ferreira e seu Banco Santos.
Serra dispunha dessa blindagem, por sua condição de economista reputado nos anos 80, de sua aproximação com o Instituto de Economia da Unicamp. Graças a isso, todos os pequenos sinais de desvio de conduta eram minimizados, tratados como futrica de adversários.
O livro provocou uma rachadura no cristal. De repente todas aquelas peças soltas da história de Serra foram sendo relidas, o quebra-cabeças remontado à luz das revelações do livro.
Os sistemas de arapongagem, que permitiram a ele derrubar a candidatura de Roseana Sarney no episódio Lunus; o chamado "jornalismo de esgoto" que o apoiou, as campanhas difamatórias pela Internet, as suspeitas de dossiê contra Paulo Renato de Souza, Aécio Neves, o discurso duplo na privatização (em particular apresentando-se como crítico, internamente operando os esquemas mais polêmicos), tudo ganhou sentido à luz da lógica desvendada pelo livro.
Fica claro, também, porque o PSDB - que ambicionava os 20 anos de poder - jogou as eleições no colo de Lula.
Todas as oportunidades de legitimação da atuação partidária foram preteridas, em benefício dos interesses pessoais da chamada ala intelectual do partido.
A perda do bonde do real
No início do real, os economistas enriqueceram com operações cambiais, em cima de uma apreciação do real que matou a grande oportunidade de criação de um mercado de consumo interno. A privatização poderia ter sido conduzida dentro de um modelo de fundos sociais, que permitiria legitimá-la e criar um mercado de capitais popular no país. Mas os interesses pessoais se interpuseram no caminho do projeto político do partido.
O cavalo encilhado
O fim da inflação permitiu o desabrochar de um mercado de consumo de massa, dez anos antes que o salário mínimo, Bolsa Família e Pronaf abrissem espaço para a nova classe média. Estariam assegurados os 20 anos de poder preconizados por Sérgio Motta, não fosse o jogo cambial, uma manobra de apreciação do real que enriqueceu os economistas mas estagnou a economia por uma década. FHC jogou fora a chance do partido e do país. Conto em detalhes essa história no livro "Os Cabeças de Planilha".
A falta de Mário Covas
Fica claro, também, a falta que Mário Covas fez ao PSDB. Com todas as críticas que possam ser feitas a ele, a Lula e a outros grandes políticos, havia neles o sentimento de povo. Na campanha de 2006, ouvi de Geraldo Alckmin a crítica - velada - à ala supostamente intelectual do PSDB. "Covas sempre me dizia para, nos finais de semana, andar pelas ruas, visitar bairros, cidades, para não perder o sentido do povo".
Os construtores e os arrivistas
Não se vá julgar impolutos Covas, Lula, Tancredo, Ulisses, o grande Montoro, Grama e outros fundadores do Brasil moderno. Dentro do modelo político brasileiro, montaram acordos nem sempre transparentes, participaram dos pactos que permitiam o financiamento partidário, familiares se aproveitaram das relações políticas para pavimentar a vida profissional. Mesmo assim, imperfeitos que eram - como políticos e seres humanos - havia neles a centelha da transformação, a vontade de deixar um legado, o apelo da redemocratização.
A ala intectual do PSDB
Esses atributos passavam ao largo das ambições da ala intelectual do partido, os economistas financistas de um lado, o grupo de Serra do outro. O individualismo exacerbado, a ambição pessoal, a falta de compromisso com o próprio partido e, menos ainda, com o país, fizeram com que não abrissem espaço para a renovação. Com exceção de Serra, FHC não legou para o partido um ministro sequer com fôlego político. Como governador, Serra não permitiu o lançamento político de um secretário sequer.
A renovação tímida
A renovação do PSDB se deu pelas mãos de Alckmin - ele próprio não revelando um secretário sequer com fôlego para sucedê-lo - e, fora de São Paulo, de Aécio Neves. Ao desvendar as manobras de Serra, o livro fecha um ciclo de ódio, personalismo, de enriquecimento de pessoas em detrimento do país e do próprio partido. No começo, será um baque para o PSDB. Passado o impacto inicial, será a libertação para o penoso reinício político.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Acorda Brasil

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

2011: a barbárie capitalista na Europa

Por Altamiro Borges

A crise capitalista está produzindo cenas chocantes e inimagináveis na Europa. O Estado de Bem-Estar Social (Welfare State), fruto das lutas dos trabalhadores e também do “medo do comunismo”, segundo o historiador Eric Hobsbawm, está sendo desmontado para saciar o apetite da burguesia rentista, maior culpada pelo caos europeu. Abaixo, três cenas deprimentes dos últimos dias:

Crianças entregues à adoção na Grécia



Segundo o jornal britânico Guardian, vítimas do desemprego crescente e da queda brusca de poder aquisitivo, famílias gregas têm entregado seus filhos para a adoção. Nas ruas de Atenas e de outras cidades, cresce o número de menores abandonados nas ruas. E médicos e enfermeiras afirmam que bebês recém-nascidos têm sido abandonados nas portas de várias clínicas.

O jornal relata o caso dramático de Dimistris Gasparinatos. Atolado em dívidas, ele decidiu entregar, na véspera do Natal, quatro de seus seis filhos para adoção numa instituição de Patras, vizinha de Atenas. “Psicologicamente, estávamos todos em meio a uma bagunça. Dormíamos em colchonetes no chão, não pagávamos o aluguel por meses, tínhamos que fazer alguma coisa”, descreve.

“Tenho vergonha de dizer, mas cheguei ao ponto de não ter nem €2 (R$ 4,8) para comprar pão. Não queríamos separar a família, mas achamos que seria melhor para eles, se quatro dos nossos filhos fossem enviados para uma instituição por dois ou três anos”. Segundo o prefeito da cidade, Theoharis Massaras, “os pedidos de auxílio social dispararam” nos últimos dois anos.

Em 2010, a prefeitura deu comida para 400 famílias no Natal. “Neste ano, 1.200 pediram ajuda e elas não eram de baixa renda. Muitos tinham bons trabalhos até este ano, quando seus comércios e negócios fecharam”, relata o prefeito. O pedido de adoção, porém, foi uma novidade em Patras. Mas, segundo várias ONGs, já há centenas de casos em todo o país devastado pela crise.

Cerca de 500 famílias entregaram seus filhos para ONG SOS Children's Village, segundo o jornal grego "Kathimerini". Um bebê foi deixado num berçário com o bilhete: “Não voltarei para pegar Anna. Não tenho dinheiro. Sinto muito. Sua mãe”. Dimistris Tzoura, diretora da ONG, confirma o quadro desolador: “Infelizmente, houve um aumento enorme de famílias passando necessidade”.

Barcelona cria cota para papel higiênico nas escolas

Segundo o jornal El País, a administração catalã, na obsessão neoliberal da “austeridade fiscal” que atormenta a Espanha em crise, decidiu estabelecer uma cota para o uso de papel higiênico nas escolas públicas de Barcelona. O documento oficial e jocoso sobre as “quantidades máximas de consumo” foi encaminhado pelo consórcio que dirige o setor, fixando a metragem do papel higiênico e de secar mãos.

Restrição aos mendigos em Paris

Da jornalista Angelique Chrisafis: “As cintilantes vitrines das lojas de luxo de Paris freqüentemente contrastam com a imagem de uma pessoa trêmula mendigando moedas nas imediações, encolhida por trás de uma cartolina onde se lê ‘fome’. Com a economia em crise, os pobres e os moradores de rua de Paris estão mais presentes que nunca nas entradas de edifícios e do metrô”.

Diante deste cenário, o presidente Nicolas Sarkozy decidiu lançar uma guerra contra os mendigos. O governo promulgou uma série de decretos que proíbem que mendigos circulem nas mais populares áreas comerciais e turísticas de Paris. “Ele diz que deter e multar mendigos é crucial para impedir que visitantes estrangeiros sejam importunados por pedintes ‘delinqüentes’”.

O prefeito de Paris, Bertrand Delanoe, definiu as medidas como “um golpe barato de relações públicas”, criado para “estigmatizar parte da população”. Para ele, “combater a pobreza com repressão e multas é chocante num momento em que o Estado não cumpre a obrigação de abrigar pessoas jovens e vulneráveis”. Sarkozy tentará sua reeleição neste ano. Por isso, ele reforça a sua imagem fascistóide.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Entrevista com Dra Fátima Oliveira sobre o Sus

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

ENTREVISTA: “Se você tinha um cavalo, você valia um cavalo quando adoecia”
  (Gustavo Andrade/O Tempo)

Fátima Oliveira, coordenadora do plantão do Hospital de Clínicas da UFMG
 Themys Cabral 

Ela desistiu de pintar os cabelos e resolveu deixar os fios brancos em paz. O povo anda criticando, mas ela não está nem aí. Sabe que as madeixas brancas têm história para contar. Uma história, aliás, que ela mesma tem orgulho de contar. Pudera. É a história de uma mulher, negra, que ajudou a construir o SUS, o Sistema Único de Saúde no Brasil. E ela não tem falsa modéstia em relação a isso. “Eu conheço cada palmo deste chão. Quando eu digo que vi o SUS nascer, é porque eu realmente vi o SUS nascer”. Fátima Oliveira é assim. 
Já correu atrás de assinatura para emenda popular constitucional em 1988, lutou pelo acesso universal à saúde, militou (e milita) nos movimentos feministas e negro e resolveu, como médica, há dez anos, que fincaria o pé apenas no pronto-socorro. Esqueceu o ambulatório. Com 58 anos de idade e 35 de profissão, ela diz que gosta mesmo é da rotina de plantões na emergência: resolver o que pode ser resolvido, sem frustrações para o amanhã com pacientes que não melhoraram porque não conseguem comprar remédio para o tratamento prescrito. 

Fátima, uma das 50 mulheres brasileiras indicadas para o Nobel da Paz, em 2005, dá plantão três vezes por semana no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Nas horas restantes, é escritora. Tem uma coluna semanal num jornal mineiro, um blog e quase uma dezena de livros publicados. E como não bastasse tudo isso, resolveu abraçar outra função há anos: análise de mídia. Ela foi a organizadora do livro “Olhar sobre a mídia”, que analisa a cobertura na área de saúde. Em entrevista à Gazeta do Povo, Fátima critica a cobertura que a imprensa faz do SUS. “A mídia é retardatária”, afirma. Veja os principais trechos da entrevista.

 (Comissão de Cidadania e Reprodução/CCR)


O SUS é um sistema bastante criticado. Como a sra. o avalia?
Eu não troco um dia de SUS de hoje, por pior que ele seja, por um da era pré-SUS. E eu tenho motivos para isso. Meu avô costumava dizer que antes do SUS eram os nossos bichos que nos salvavam na doença. Quanto eu tinha 12 anos, tive febre tifóide. Não tinha médico na cidade em que eu morava, no interior do Maranhão. Quem atendia era um farmacêutico chamado dr. Osano. Eu me lembro até hoje do dia que eu escutei ele falando que eu ia morrer. Mas depois eu fiquei boa. Eu lembro de a vovó dizer assim: “abaixo de Deus o dr. Osano, que salvou a vida da minha neta”. E do meu avô responder: “E as minhas seis vacas que eu usei para pagar ele.” 

Pagava-se o atendimento com os bichos que se tinha...
Meu avô dizia que se você tinha um cavalo, você valia um cavalo quando adoecia, porque era o que você tinha para vender para se tratar. Quantas vezes a gente ouvia assim: “A fulana vendeu umas galinhas para levar as filhas dela ao médico, vendeu os porcos”. Era assim, porque era longe e sempre particular. Se não tinha como pagar, morria-se absolutamente à míngua. 


Como funcionava o sistema de saúde na época? 
No período pré-SUS, tinha o Inamps. Todo trabalhador com carteira assinada tinha direito a uma carteira do Inamps. Quem não tinha carteira profissional assinada era indigente. 

Sem carteira do Inamps, se não pudesse pagar atendimento particular, ficava sem?
Ficava. Nas capitais você até tinha pronto-socorros municipais/estaduais para os indigentes ou hospitais filantrópicos que os atendiam. Muitas mães, com o filho muito doente, levavam a carteirinha de outra criança, pegavam emprestado de uma vizinha, uma amiga. Se o fiscal do Inamps descobrisse, entretanto, que uma carteirinha era falsa, punia o hospital e não pagava aquela conta. E o hospital punia aquela mãe, querendo obrigá-la a pagar. Dava alta para a criança e a mandava embora. Não importava se tivesse em risco.

Como aconteceu a universalização da saúde?
Quando eu digo que vi o SUS nascer, é porque eu vi. Eu conheço cada palmo desse chão mesmo. Em 88, havia uma mobilização grande para que a Constituição da República incorporasse o ideário do SUS. Era para isso que os militantes da reforma sanitária batalhavam. E essa luta pela saúde e pela reforma sanitária foi muito importante na redemocratização do país. Nós conseguimos escrever na Constituição Brasileira: “Saúde é direito de todos e dever do Estado”. Eu acho que foi uma das maiores vitórias do movimento social de toda a história do Brasil. 

Na sua opinião, quais os principais problemas do SUS? 
O SUS é uma coisa em construção. Uma conquista que precisa ser concretizada cotidianamente. Temos problemas de gerenciamento, de incompreensão política dos governos, incompreensão dos usuários que usam o pronto-socorro até para o espirro. 
Outro problema: dá uma enorme irritação imaginar que às 5 horas todo lugar que faz consulta na rede pública neste país está fechado. Eu sou uma defensora intransigente do terceiro turno no setor de saúde, tanto em postos, como em ambulatórios. Se eles funcionassem à noite, as pessoas não precisariam faltar ao trabalho para fazer uma consulta. Você ampliaria o número de consultas e geraria empregos. 


O dinheiro para saúde não é pouco? 
Eu acho que ele é pouco para fazer tudo o que a gente quer, como se o SUS fosse um sistema pronto e acabado. Dinheiro para saúde no Brasil é muito. O problema é que ele não chega à ponta, onde tem de chegar. Outro problema é que a maioria dos governos estaduais e municipais quer fazer SUS só com dinheiro do governo federal. Está na Constituição que os “caras” devem aportar dinheiro e que o SUS é tripartite, com recurso de três esferas. Agora, foi votada a Emenda 29: 12% dos estados, 15% dos municípios e o governo federal não chega a 10% do PIB [Produto Interno Bruto], por causa daquela conta maldita lá. Mas eu acho que é melhor do que nada. Está resolvido. Vencemos esta batalha, vamos para outras. 

Como a sra. avalia a cobertura da mídia em relação ao SUS?
Que a mídia sataniza o SUS. Como estudiosa de mídia, eu tenho elementos para dizer. No geral, a mídia é sempre retardatária. Ela corre atrás da notícia. O falar mal do SUS é muito patente. A mídia está sempre do lado contra quando tem uma votação para ir mais dinheiro para o SUS. Ela não quer que o SUS tenha mais dinheiro. Foi assim com CPMF, ou com qualquer projeto. A mídia teve também um papel decisivo na ampliação dos planos de saúde no Brasil, dourando a pílula. Os planos de saúde venderam uma coisa que eles não tinham. Venderam tanto que agora deu “crap”. Mas uma cobertura magnífica foi na época da pílula de farinha [em 1998]. Ali foi o grande momento da mídia brasileira, que investigou, foi atrás. 




A sra. já falou que não troca a rotina do pronto-socorro...
Eu amo trabalhar em urgência. Eu nunca larguei de trabalhar em pronto-socorro nestes 35 anos que eu sou médica. E nos últimos dez eu só trabalhei em pronto-socorro. 


Por quê?
Eu comecei a ficar cansada do ambulatório, daquela coisa de atender diabético, asmático, hipertenso. Aí eles voltam e não compraram o remédio. Meu carro era o tempo todo cheio de amostra grátis. Aquele negócio foi me cansando. As pessoas não melhoram porque não tomam remédio, porque têm uma vida desgraçada. No pronto-socorro, eu trabalho 12 horas, mas, quando eu chego em casa, eu durmo, porque tudo o que eu podia fazer por aquela pessoa que foi atendida na urgência, eu fiz. E saio com a consciência absolutamente tranquila. Eu resolvi não me culpar mais por aquilo que não era culpa minha: as pessoas não terem condições de fazer seus tratamentos. 


A sra. foi uma das brasileiras indicadas ao Nobel da Paz. Como foi isso?
Em 2005, houve uma mobilização mundial para a indicação de mil mulheres ao Nobel da Paz. Cada país tinha uma cota de mulheres para serem indicadas e a cota do Brasil era 50. E eu fui uma das 50. Acho que foi uma indicação que considerou a minha história de vida, de militância feminista, no movimento negro, na luta pelo SUS.


Themys Cabral

Editora do Núcleo de Saúde 
GRPCOM – Grupo Paranaense de Comunicação
41 3321.5316
www.gazetadopovo.com.br 
Publicado em 19.12.2011 FONTE: Gazeta do Povo, Curitiba- Paraná

LEIA TAMBÉM:
Filosofando sobre "Mídia e saúde: quando o SUS vira notícia" 14ª CNS: Comunicadores da Saúde debatem o SUS + Ti-ti-ti no twitter sobre a Oficina Diálogos Saúde e Mídia
Postado por Fátima Oliveira às 10:02

Entrevista com a Dra Fátima Oliveira sobre o Sus e a Mídia


ENTREVISTA: “Se você tinha um cavalo, você valia um cavalo quando adoecia”

 Gustavo Andrade/O Tempo /  (Gustavo Andrade/O Tempo)

Fátima Oliveira, coordenadora do plantão do Hospital de Clínicas da UFMG
 Themys Cabral 

Ela desistiu de pintar os cabelos e resolveu deixar os fios brancos em paz. O povo anda criticando, mas ela não está nem aí. Sabe que as madeixas brancas têm história para contar. Uma história, aliás, que ela mesma tem orgulho de contar. Pudera. É a história de uma mulher, negra, que ajudou a construir o SUS, o Sistema Único de Saúde no Brasil. E ela não tem falsa modéstia em relação a isso. “Eu conheço cada palmo deste chão. Quando eu digo que vi o SUS nascer, é porque eu realmente vi o SUS nascer”. Fátima Oliveira é assim. 
Já correu atrás de assinatura para emenda popular constitucional em 1988, lutou pelo acesso universal à saúde, militou (e milita) nos movimentos feministas e negro e resolveu, como médica, há dez anos, que fincaria o pé apenas no pronto-socorro. Esqueceu o ambulatório. Com 58 anos de idade e 35 de profissão, ela diz que gosta mesmo é da rotina de plantões na emergência: resolver o que pode ser resolvido, sem frustrações para o amanhã com pacientes que não melhoraram porque não conseguem comprar remédio para o tratamento prescrito. 

Fátima, uma das 50 mulheres brasileiras indicadas para o Nobel da Paz, em 2005, dá plantão três vezes por semana no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais. Nas horas restantes, é escritora. Tem uma coluna semanal num jornal mineiro, um blog e quase uma dezena de livros publicados. E como não bastasse tudo isso, resolveu abraçar outra função há anos: análise de mídia. Ela foi a organizadora do livro “Olhar sobre a mídia”, que analisa a cobertura na área de saúde. Em entrevista à Gazeta do Povo, Fátima critica a cobertura que a imprensa faz do SUS. “A mídia é retardatária”, afirma. Veja os principais trechos da entrevista.

 (Comissão de Cidadania e Reprodução/CCR)


O SUS é um sistema bastante criticado. Como a sra. o avalia?
Eu não troco um dia de SUS de hoje, por pior que ele seja, por um da era pré-SUS. E eu tenho motivos para isso. Meu avô costumava dizer que antes do SUS eram os nossos bichos que nos salvavam na doença. Quanto eu tinha 12 anos, tive febre tifóide. Não tinha médico na cidade em que eu morava, no interior do Maranhão. Quem atendia era um farmacêutico chamado dr. Osano. Eu me lembro até hoje do dia que eu escutei ele falando que eu ia morrer. Mas depois eu fiquei boa. Eu lembro de a vovó dizer assim: “abaixo de Deus o dr. Osano, que salvou a vida da minha neta”. E do meu avô responder: “E as minhas seis vacas que eu usei para pagar ele.” 

Pagava-se o atendimento com os bichos que se tinha...
Meu avô dizia que se você tinha um cavalo, você valia um cavalo quando adoecia, porque era o que você tinha para vender para se tratar. Quantas vezes a gente ouvia assim: “A fulana vendeu umas galinhas para levar as filhas dela ao médico, vendeu os porcos”. Era assim, porque era longe e sempre particular. Se não tinha como pagar, morria-se absolutamente à míngua. 


Como funcionava o sistema de saúde na época? 
No período pré-SUS, tinha o Inamps. Todo trabalhador com carteira assinada tinha direito a uma carteira do Inamps. Quem não tinha carteira profissional assinada era indigente. 

Sem carteira do Inamps, se não pudesse pagar atendimento particular, ficava sem?
Ficava. Nas capitais você até tinha pronto-socorros municipais/estaduais para os indigentes ou hospitais filantrópicos que os atendiam. Muitas mães, com o filho muito doente, levavam a carteirinha de outra criança, pegavam emprestado de uma vizinha, uma amiga. Se o fiscal do Inamps descobrisse, entretanto, que uma carteirinha era falsa, punia o hospital e não pagava aquela conta. E o hospital punia aquela mãe, querendo obrigá-la a pagar. Dava alta para a criança e a mandava embora. Não importava se tivesse em risco.

Como aconteceu a universalização da saúde?
Quando eu digo que vi o SUS nascer, é porque eu vi. Eu conheço cada palmo desse chão mesmo. Em 88, havia uma mobilização grande para que a Constituição da República incorporasse o ideário do SUS. Era para isso que os militantes da reforma sanitária batalhavam. E essa luta pela saúde e pela reforma sanitária foi muito importante na redemocratização do país. Nós conseguimos escrever na Constituição Brasileira: “Saúde é direito de todos e dever do Estado”. Eu acho que foi uma das maiores vitórias do movimento social de toda a história do Brasil. 

Na sua opinião, quais os principais problemas do SUS? 
O SUS é uma coisa em construção. Uma conquista que precisa ser concretizada cotidianamente. Temos problemas de gerenciamento, de incompreensão política dos governos, incompreensão dos usuários que usam o pronto-socorro até para o espirro. 
Outro problema: dá uma enorme irritação imaginar que às 5 horas todo lugar que faz consulta na rede pública neste país está fechado. Eu sou uma defensora intransigente do terceiro turno no setor de saúde, tanto em postos, como em ambulatórios. Se eles funcionassem à noite, as pessoas não precisariam faltar ao trabalho para fazer uma consulta. Você ampliaria o número de consultas e geraria empregos. 


O dinheiro para saúde não é pouco? 
Eu acho que ele é pouco para fazer tudo o que a gente quer, como se o SUS fosse um sistema pronto e acabado. Dinheiro para saúde no Brasil é muito. O problema é que ele não chega à ponta, onde tem de chegar. Outro problema é que a maioria dos governos estaduais e municipais quer fazer SUS só com dinheiro do governo federal. Está na Constituição que os “caras” devem aportar dinheiro e que o SUS é tripartite, com recurso de três esferas. Agora, foi votada a Emenda 29: 12% dos estados, 15% dos municípios e o governo federal não chega a 10% do PIB [Produto Interno Bruto], por causa daquela conta maldita lá. Mas eu acho que é melhor do que nada. Está resolvido. Vencemos esta batalha, vamos para outras. 

Como a sra. avalia a cobertura da mídia em relação ao SUS?
Que a mídia sataniza o SUS. Como estudiosa de mídia, eu tenho elementos para dizer. No geral, a mídia é sempre retardatária. Ela corre atrás da notícia. O falar mal do SUS é muito patente. A mídia está sempre do lado contra quando tem uma votação para ir mais dinheiro para o SUS. Ela não quer que o SUS tenha mais dinheiro. Foi assim com CPMF, ou com qualquer projeto. A mídia teve também um papel decisivo na ampliação dos planos de saúde no Brasil, dourando a pílula. Os planos de saúde venderam uma coisa que eles não tinham. Venderam tanto que agora deu “crap”. Mas uma cobertura magnífica foi na época da pílula de farinha[em 1998]. Ali foi o grande momento da mídia brasileira, que investigou, foi atrás. 




A sra. já falou que não troca a rotina do pronto-socorro...
Eu amo trabalhar em urgência. Eu nunca larguei de trabalhar em pronto-socorro nestes 35 anos que eu sou médica. E nos últimos dez eu só trabalhei em pronto-socorro. 


Por quê?
Eu comecei a ficar cansada do ambulatório, daquela coisa de atender diabético, asmático, hipertenso. Aí eles voltam e não compraram o remédio. Meu carro era o tempo todo cheio de amostra grátis. Aquele negócio foi me cansando. As pessoas não melhoram porque não tomam remédio, porque têm uma vida desgraçada. No pronto-socorro, eu trabalho 12 horas, mas, quando eu chego em casa, eu durmo, porque tudo o que eu podia fazer por aquela pessoa que foi atendida na urgência, eu fiz. E saio com a consciência absolutamente tranquila. Eu resolvi não me culpar mais por aquilo que não era culpa minha: as pessoas não terem condições de fazer seus tratamentos. 


A sra. foi uma das brasileiras indicadas ao Nobel da Paz. Como foi isso?
Em 2005, houve uma mobilização mundial para a indicação de mil mulheres ao Nobel da Paz. Cada país tinha uma cota de mulheres para serem indicadas e a cota do Brasil era 50. E eu fui uma das 50. Acho que foi uma indicação que considerou a minha história de vida, de militância feminista, no movimento negro, na luta pelo SUS.


Themys Cabral

Editora do Núcleo de Saúde 
GRPCOM – Grupo Paranaense de Comunicação
41 3321.5316
www.gazetadopovo.com.br
Publicado em 19.12.2011 FONTE: Gazeta do Povo, Curitiba- Paraná

LEIA TAMBÉM:
Filosofando sobre "Mídia e saúde: quando o SUS vira notícia" 14ª CNS: Comunicadores da Saúde debatem o SUS + Ti-ti-ti no twitter sobre a Oficina Diálogos Saúde e Mídia

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O IMORTAL IMORAL


O Imortal imoral


Essa é boa, só rindo prá não chora. E no atual estado de espírito quer estou hoje até que serviu para provocar alguns frouxos de risos em mim.
Vejamos: O jornalista Merval Pererira que está na Academia de Letras sem nunca ter escrito um livro se quer - apenas uma coletânia de artigos em o Globo –  até hoje  se vangloria por ter participado de uma reportagem sensacional que tinha Amaury como autor   juntamente com outros jornalistas, e ele  apenas diretor da sucursal de jornalismo, hoje, como um capacho, servindo aos interesses de quem o paga tem a petulância de criticar o livro “A Privataria Tucana” falando mal do  Amaury um dos jornalistas que o fez imortal.  Vá ser Imoral assim nos raios que o partamwww,guidaporguida.blogspot.com

CIÊNCIAS SEM FRONTEIRAS


Segunda-feira, 19 de dezembro de 2011 às 9:06


Presidenta Dilma afirma que Ciência sem Fronteiras é impulso inédito para formação científica e tecnológica dos jovens talentos


O programa Ciência sem Fronteiras, que terá R$ 3,2 bilhões em investimentos do governo federal, é um impulso inédito para a formação científica e tecnológica dos jovens brasileiros, avaliou hoje (19) a presidenta Dilma Rousseff no programa Café com a Presidenta.


Ela lembrou que o governo vai oferecer 75 mil bolsas de estudos até 2014 para que jovens talentos possam estudar nas melhores universidades do mundo. Além do investimento público, acrescentou a presidenta, uma parceria com empresas e outras instituições já viabilizou a oferta de mais 26 mil bolsas nos próximos anos, totalizando 101 mil bolsas do programa.


Em dezembro, o governo abriu inscrições para selecionar 12,5 mil jovens brasileiros dos cursos de graduação, que vão estudar durante um ano e meio em universidades dos Estados Unidos, da Alemanha, da Itália, do Reino Unido ou da França. Mas, no dia 2 de janeiro, serão abertas mais 500 vagas para o Canadá.


“A necessidade mais urgente do nosso mercado de trabalho é ampliar a formação na área das engenharias, das ciências exatas, das ciências médicas e da tecnologia de informação. Esse é um programa que veio para ficar. Tenho a certeza de que depois desses 101 mil estudantes ou mais, que vamos selecionar até 2014, virão mais outros milhares. Eles vão estudar lá fora e, depois, com os conhecimentos científicos, serão cada vez mais capazes de ajudar o Brasil a ganhar mais produtividade e competitividade. O Ciência sem Fronteiras é um investimento no futuro do Brasil.”




Blog do Planalto


sábado, 17 de dezembro de 2011

Fina Estampa: decadência da civilidade

Altamiro Borges: Fina Estampa: decadência da civilidade: Por Washington Araújo, no blog Um cidadão do mundo : O programa de maior audiência da televisão brasileira é uma novela. E não uma novela ...